O carpinteiro que fez a mesa
A mesa que fica ao centro da sala tem doze lugares e pesa cerca de oitenta quilos. Fê-la o Manuel Correia, carpinteiro de Albufeira, numa oficina a dez minutos daqui.
Quando procurámos um carpinteiro para o projecto, queríamos alguém local — não por princípio abstracto, mas porque queríamos que a mesa tivesse uma origem concreta. Que quando alguém perguntasse "quem fez isto?", houvesse uma resposta com nome e morada.
O Manuel tem a oficina numa das ruas atrás do mercado. Trabalha principalmente com mobiliário doméstico — cozinhas, armários, estantes — e aceita alguns projectos de encomenda por ano. Quando lhe mostrámos o espaço e dissemos o que queríamos, ficou a olhar para o chão durante uns segundos e depois disse: "carvalho".
Não perguntámos porquê. Depois percebemos — o carvalho envelhece bem com uso, absorve marcas sem as esconder, e tem um peso que transmite permanência sem ser pesado demais para mover.
A mesa demorou três semanas. O Manuel trouxe-a numa carrinha e ajudou a colocá-la no centro da sala. Encostámos as cadeiras. Ficámos os três a olhar durante um bocado.
Tem uma superfície ligeiramente irregular — não porque o Manuel não soubesse lixa-la, mas porque assim foi pedido. Queremos que a mesa pareça usada desde o início. Que as pessoas não tenham receio de pousar um copo ou riscar com um lápis. As marcas que ficarem nos próximos anos vão contar uma história.
Já tem algumas. Há uma mancha de aguarela azul-cobalto perto do canto esquerdo que ficou na primeira semana. Há um traço de grafite que alguém fez para testar um lápis novo. Há uma ligeira amolgadela que não sabemos de onde veio.
O Manuel aparece de vez em quando. Senta-se à mesa, bebe um café, olha para o trabalho que está a decorrer. Ainda não fez nenhuma peça. Mas não parece que nunca vai fazer.